O FLORICULTOR - Conto (macroconto)
Em um determinado
dia, Otácio, um belo jovem caipira de 25 anos, cansado do serviço árduo nas
empreitas de roçagem de pastos que ele se via na obrigação de pegar para fazer,
pois era a única maneira que ele encontrara para ganhar o seu sustento; decidiu
que ia virar floricultor, mas ele não possuía terra, um pedacinho sequer. Aí lhe
veio a seguinte ideia: propor a um dos fazendeiros dos quais costumava pegar
pastos para roçar, uma parceria; uma troca popularmente falando; ele, Otácio, roçaria uma determinada área de pasto em troca do direito de cultivar flores em
uma pequena área à beira de um córrego, entre esse córrego e a estrada que dava
acesso à sede da fazenda.
A vida de Otácio era
muito dura, vivia com a mãe em uma casa muito simples em povoado vizinho, de
onde se deslocava de bicicleta e às vezes a pé para trabalhar nas fazendas da
região. E sabendo ele que para cultivar aquela plantação de flores, ele teria
que trabalhar menos nas empreitas, viu-se na obrigação de segurar o pouco
dinheiro que havia guardado, fruto da luta árdua nas roçagens de pastos e
aquela área próxima ao córrego lhe facilitaria um pouco a vida, pois gastaria
menos equipamentos necessários para a irrigação, uma vez que a água necessária
para regar as plantas estava bem próxima.
Ao fazer a proposta
ao seu César Augusto, o dono daquela terra, obteve a resposta desejada e de
imediato começou a prepará-la, de maneira toda manual, ele não dispunha
de condições para pagar uma máquina que fizesse tal preparo e com sua enxada,
obstinado como era, em pouco tempo conseguiu preparar a terra e logo fez todo
plantio; plantou flores de fácil cultivo, não tinha como investir em cultivos
mais elaborados, que lhe exigissem recursos.
Não levou muito tempo
para Otácio ver o fruto do seu trabalho; ai foi só começar a executar os seus
planos de venda da sua sonhada produção de flores, que era ir à cidade onde se
localizava o distrito em que morava e negociar o fornecimento às floriculturas
ali existentes. Era também seu sonho, ter a única floricultura do seu distrito,
para isso fez ele mesmo um pequeno galpão à frente de sua casa; conciliando a
sua dedicação às flores com o difícil trabalho nos pastos, ganhou dinheiro
suficiente para montar sua floricultura e comprar uma moto velha para
improvisar o transporte das flores que ele necessitasse fazer. E tudo ia bem,
com muitas dificuldades mas ele já era mestre em superá-las... afinal a
vida de jovens pobres é sempre marcada por adversidades; isso lhes é peculiar... porém, propensos a surpresas logicamente e Otácio teve a grande surpresa da sua
vida, aliás a que poderia ser a maior e melhor de toda a sua vida, sim, poderia,
se a grande surpresa não fosse filha do seu patrão, a bela e rica jovem
estudante de medicina Marllinie Marques de Arruda Monteiro, filha caçula do
grande fazendeiro Cesar Augusto de Arruda Monteiro.
Ao chegar para passar
as férias de final de ano com a família, a primeira pessoa que ela avistou
dentro da propriedade foi o jovem Otácio, que embora desprovido de posses, era
bem provido de boa aparência e lhe despertou um encanto incontido; a ponto de
ela descer do seu carro e adentrar aquela pequena planície florida; aproximando-se dele disse: – nunca lhe vi aqui na fazendo antes, aliás nem você
nem esse lindo campo de flores – isso com um sorriso que se iniciava num tímpano
e terminava no outro. O encanto foi mútuo, afinal o jovem trabalhador rural e
inspirante a floricultor só tinha tempo para o trabalho e para a dona Elenita,
sua mãe hipertensa e diabética; depois o lugarejo era meio desprovido de moças
descomprometidas, além de serem poucas; a população da vila era pequena e em
sua maioria mais madura.
Marllinie e Otácio se
esqueceram do tempo, do mundo, parecia que se conheciam a muito e que a muito
tempo não se viam; não lhes faltavam assuntos, até que após se mostrar tão
maravilhada com as belas flores cultivadas por Otácio, esse começou a apanhar
as mais vistosas e formando com elas um lindíssimo buquê, delicadamente o
ofereceu a Marllinie, ela que já se encontrava muito próxima a ele não se
conteve, ao receber o buquê, deu-lhe um aconchegante abraço.
Nesse exato momento,
o pai de Marllinie, seu César Augusto, montando seu manga-larga branco, se
aproximou, surpreendendo os dois jovens e surpreendido pelo que acabava de ver,
usou de seu sangue frio, falou calmamente, dirigindo-se apenas à sua filha,
ordenando que ela fosse para casa; pálida, a belíssima jovem de 21 anos de
pronto atendeu ao seu pai. Ele a esperou entrar em seu carro e seguiu após ela;
Otácio, pálido e trémulo estava, pálido e trémulo ficou, tomado por uma
confusão de emoções causadas pelo abraço da moça e pelo pânico de seu pai.
Passou-se o resto do dia e aparentemente tudo tinha acabado ali, contudo no
coração de Marllinie havia um pulsar diferente e na cabeça de seu César
Augusto, pensamentos inquietantes.
No dia seguinte, Marllinie conseguiu se conter até a hora em que seu pai pegou a caminhonete e foi para cidade; inquieta por aquele sentimento repentino, saiu andando pela fazenda até que se viu vagueando pela plantação de flores e ao se deparar com Otácio que estático a contemplava, Marllinie conseguiu lhe fazer apenas uma pergunta antes de se jogar nos braços dele novamente; perguntou-lhe se acreditava em amor à primeira vista, antes mesmo de ouvir toda a curta resposta, que foi – sim, acredito – ela já se encontrava como um pingente em seu pescoço. Todavia, como parece renegado aos diferentes o direito de amar e tudo ou quase tudo conspira contra... o caso deles não fugiu à regra. E sem se atentarem para o risco de serem flagrados outra vez pelo latifundiário conservador, se beijaram demoradamente e por azar deles, pela segunda vez foram pegos, porém sequer se deram conta.
Seu César Augusto, frio como era, parou a sua
caminhonete, observou bem os dois, pensou no quão bem havia casado sua filha
mais velha, no provável casamento que faria seu filho do meio, uma vez que
ele namorava a filha de um mega industrial e nas condições do jovem Otácio; isso lhe acendeu uma ira terrível e sem descer do carro ligou para o seu tratorista
e ordenou que o encontrasse devidamente preparado para arar uma terra e quando
Otácio e Marllinie se deram conta, só ouviam os gritos de seu César Augusto
ordenando ao seu empregado que destruísse tudo, o qual ainda se hesitou por um
instante, mas se viu obrigado a cumprir aquelas ordens.
Otácio e Marllinie
desesperados não acreditavam no que viam, o jovem floricultor foi dos sonhos ao
pesadelo; a filha do fazendeiro corria para a frente do trator como se pudesse
servir de escudo para a tão sonhada plantação do seu já tão amado, ele por sua
vez, ora abraçava o que conseguia das suas flores, ora puxava os cabelos e
gritava externando o seu completo desespero; por fim, tanto Otácio como
Marllinie se jogaram sobre as flores misturadas à terra e choravam, lágrimas que pareciam ser de sangue, pois seus corações pareciam
sangrar.
Impiedoso, seu César
Augusto fez entrar no seu carro a sua filha e dirigiu-se à sua sede, deixando
misturado à terra o pobre jovem; sem posses, sem terras, sem flores, sem
sonhos.
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